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Sofá

por mary, em 02.01.13

Vivíamos um amor parolo como aqueles que o Lobo Antunes descreve tão bem nas suas crónicas,
Que vivia encantada sempre a ser adorada, a julgar que era uma mais-que-tudo, idolatrada em segredo.
Vivi esses momentos com um orgulho desmedido, ai que ricos filhos que nós temos, ai que aqui existe tanto amor, valha-nos isso que de resto pouco temos.
Vivíamos constantemente sem dinheiro, numa espera ansiosa do fim do mês. Que se calhar este mês é que dá para passarmos o fim-de-semana numa pousadita ou talvez comprarmos aquela estante que tanta falta nos faz, ou encomendar uma cama para o mais velho que a criança já nem cabe naquela gaiolita de quando era um bébé.Pobre coitado! Que tão mal se ajeita naquelas grades de prisão mal dormida, que tantos avisos nos faz, "que não gosto desta cama, quero dormir na cama da mãe".
Vivíamos tão angustiados que só podia mesmo saber tão bem, tão enroscadinhos que ficávamos ao fim da noite no sofá comprado em promoção.
Os miúdos calados e o nosso silêncio preenchido com frases tão sinceras "já te disse que és a mulher mais bonita do mundo?"
Que silêncio Meu Deus, que conforto que fazia, sabermo-nos tão próximos que nos ríamos da pobreza e precariedade que nos habituámos tão bem. Quanta força havia naquelas palavras, "se sairmos desta este mês então é porque vamos mesmo morrer velhinhos, agarrados a este amor que nos alimenta desta fome e nos aquece deste frio social".
Que felizes que nós eramos bolas!
O que nos fez zangarmo-nos tanto que desapareceu todo aquele brilho que iluminava as nossas noites agarradinhos no sofá?
"Gostava tanto de ir jantar fora contigo, passávamos a noite em qualquer sítio. Os miúdos ficam bem vais ver. É só por uma noite descansa"
Onde jantas tu agora nestas noites em que as horas passam sem que eu dê conta? Tenho muito mais trabalho agora que estou com eles. É tudo a dobrar, sou só eu sozinha a carregar estas horas.
Estas horas em que me lembro de tanta coisa que quando dou por mim, já são horas de dormir, de tentar descansar,
De tentar convencer-me que afinal foi melhor assim, porque nos destruíamos um ao outro. Como foi possível destruir alguma coisa assim, agarradinhos num sofá...

 

algures em 2008

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